História da viagem a Cabo Verde
O grupo de Kola San Jon, KSJ, do Bairro do Alto da Cova da Moura, Kova M, é constituído por um grupo de pessoas, moradores no Kova M e noutros bairros de Lisboa, criado no âmbito da actividade que a Associação Cultural Moinho da Juventude, ACMJ, desenvolve neste bairro e, desempenha um papel importante na vida social, cultural e económica dos cabo-verdianos e dos seus descendentes. As festas são em Junho, nos santos populares, apesar de outras actuações acontecerem durante todo o ano. A dinâmica à volta deste género musical cabo-verdiano denuncia uma multiplicidade de significados, de retóricas, de narrativas, de memórias e de comportamentos expressivos que transformam o género musical numa prática performativa de natureza polissémica, que incorpora a música, a dança, a voz e os artefactos. Aqui, o som dos tambores, apitos e vozes convocam todos os presentes para a dança na qual o golpe da umbigada se repete num movimento contínuo que é colorido com os rosários, com os navios e com outros artefactos. Também a componente religiosa, associada a um conjunto de crenças que são ritualizadas na devoção a São João Baptista, de diversas formas, com no uso de imagens do santo, na realização de missas e em peregrinações, como é exemplo a jornada que parte da Ribeira das Patas e que termina em Porto Novo, na ilha de Santo Antão. Finalmente, e pensando apenas no KSJ realizado na comunidade residente em Lisboa, na representação simbólica de memórias e de retóricas que se mesclam nas relações sociais, e que, ao representar o espaço de origem criam pontes efectivamente lusófonas porque a música funciona como símbolo de algo maior e permite a partilha.
O KSJ define o paradigma de um processo de proximidade e distância do “outro”. Num episódio curioso, materializado na viagem a Cabo Verde, o retorno ao espaço de origem e a partilha com os pares de um processo musical e ritual constitui um modo de legitimação da diferença e de reabilitação da autoridade interna uma vez que esta viagem é também uma forma, para os que fora do Kova M, de testar a sua própria cabo-verdianidade.
Esta história representa a memória de uma viagem a Cabo Verde. Apesar de ter sido adoptada uma linguagem mais característica de livro de viagens constitui uma importante parte etnográfica de uma investigação, predominantemente etnomusicológica, realizada no âmbito de um mestrado em Música.
O diálogo, no sentido em que se escolhe as questões fundamentais para construir bases comuns, tem na música um espaço privilegiado, porque o carácter performativo da música expõe, negoceia, partilha, convida e aceita. Aqui, a prática dialógica foi convocada pelo investigador, onde as diferentes narrativas contribuem para a construção do conhecimento.
Da estação de Lisboa Oriente ao aeroporto apanhei um táxi e, quando cheguei ao cais das partidas, estava já um grupo grande, de pessoas do Kola, junto da porta. Um grupo de pessoas maravilhoso, com bonés na cabeça, tambores embrulhados, sacos e saquinhos com lembranças para a família, olhos brilhantes e intranquilos, ansiedade, nervosismo, a interrogação do desconhecido, do conhecido, a interrogação da concretização das expectativas. Passaportes giravam, bilhetes estavam preparados e à mostra nas mãos. Cabo Verde estava ali, já perto. Roupas preparadas com todo o cuidado para rever familiares, presentes guardados nas malas de mão para não serem perdidos, os cabelos arranjados; lembro-me de a Amélia perguntar, ansiosa, se eu gostava da roupa que ela tinha para ver uma mãe distante há 15 anos!
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